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Estado é responsável por 30% do valor investido pelo Governo Federal, através do programa Monumenta, na recuperação do patrimônio histórico
* Por Carlos Lordelo (estagiário)
“Restaurar um monumento significa recuperar locais de memória coletiva ou particular. É, sobretudo, cuidar de um fragmento do passado que, por diversos motivos, conseguiu chegar até o presente”. A definição da historiadora Verônica Nunes esclarece a importância que tem a recuperação e a preservação do patrimônio histórico de uma localidade. Esses são os objetivos do Monumenta, programa do Governo Federal financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) que contempla 26 municípios brasileiros, dois deles sergipanos: São Cristóvão e Laranjeiras. O Governo do Estado é responsável por 30% do aporte de recursos.
Atualmente, o Lar Imaculada Conceição e o Museu Histórico de Sergipe estão sendo restaurados. O valor do investimento nas duas edificações localizadas no município de São Cristóvão chegará a R$ 1.399.627,30. Em Laranjeiras, está prevista para dezembro deste ano a inauguração da reforma do Quarteirão dos Trapiches. Na área de 3.231,60 m² estão sendo construídas 10 salas de aula, cinco laboratórios, dois auditórios, sala de informática e de vídeo, além de copa, cozinha e banheiros, numa estrutura que será ocupada pela sede do campus da Universidade Federal de Sergipe (UFS) na cidade. Os investimentos são da ordem de R$ 2.770.530,84.
O Monumenta realizou os estudos iniciais em 1995 nas cidades de Ouro Preto (MG), Olinda (PE), Recife (PE), Salvador (BA), Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP). Os municípios sergipanos passaram a integrar o raio de ação do projeto em 2004, quando foram assinados os convênios entre o Governo do Estado e o Ministério da Cultura (MinC). Ficou estabelecido que os investimentos seriam de R$ 4.796.735,00 em Laranjeiras, e de R$ 4.902.610,72 em São Cristóvão.
“O programa está tendo continuidade, e a grande mudança vai acontecer com a assinatura do aditivo ao convênio”, explica Tatiana Costa, técnica da Unidade Executora de Projeto (UEP) do Monumenta São Cristóvão. Segundo ela, a revisão do perfil do projeto foi concluída este ano e o BID já aceitou a proposta de ampliação do financiamento. Em meados de setembro, a Secretaria de Estado da Infra-Estrutura (Seinfra) encaminhou para a coordenação nacional do Monumenta, em Brasília (DF), os projetos executivos, que serão submetidos à nova aprovação. O próximo passo será a licitação das obras.
Com a ampliação do perfil, o Monumenta vai injetar mais R$ 2.114.268,00 em Laranjeiras para restaurar o prédio da carpintaria da Prefeitura Municipal e adaptá-lo a um centro comercial. Em São Cristóvão, o novo investimento na recuperação do patrimônio histórico será de R$ 3.990.569,18. Dois monumentos serão restaurados: a antiga Delegacia da cidade, que será transformada no futuro Museu da Polícia Militar de Sergipe, e a sede da Prefeitura Municipal.
Ainda em São Cristóvão, os elementos artísticos da Igreja e Convento Santa Cruz, Museu de Arte Sacra, Lar Imaculada Conceição, Igreja do Rosário dos Homens Pretos e pinturas parietais da sede da Prefeitura serão recuperados a partir da chegada desses novos recursos. “Elementos artísticos são os bens, integrados ou não a uma edificação, que possuem maior apuro construtivo e estético, como altares e forros decorados das igrejas”, define Tatiana Costa.
Nova vida
O objetivo do Monumenta vai além de recuperar e preservar o patrimônio histórico. O programa também visa promover o desenvolvimento econômico e social nos locais onde atua. Nos municípios sergipanos, não poderia ser diferente. Que o diga seu Erinaldo Souza, um dos 63 funcionários empregados na obra do Quarteirão dos Trapiches. Morador de Laranjeiras, ele já consegue sentir melhorias na cidade depois das restaurações realizadas pelo projeto do Governo Federal em parceria com o Estado de Sergipe. “Laranjeiras está ficando mais bonita, porque essas obras estão trazendo vida para a cidade. Com a universidade, quem iria sair daqui para morar em Aracaju não vai mais”, disse o experiente carpinteiro.
Um outro patrimônio de Laranjeiras recuperado pelo Monumenta foi a Igreja Matriz. Os recursos garantiram a troca do telhado, que apresentava vazamentos, do forro convencional e a pintura externa. “O cupim tinha comido toda essa madeira”, ressaltou a dona de casa Maria de Lourdes, apontando para o forro da igreja. “Agora está tudo reformado, graças a Deus. Essa obra valeu a pena”, comemora a laranjeirense.
Reforço na candidatura
A candidatura da Praça São Francisco, de São Cristóvão, a Patrimônio da Humanidade, recebe um reforço de peso com a série de investimentos que estão sendo feitos na recuperação dos monumentos históricos que margeiam o espaço público. São construções que datam principalmente do período que vai do final do século XVII até meados do XIX, refletindo estilos arquitetônicos como o barroco e o neoclássico. Uma amostra da riqueza da quarta cidade mais antiga do Brasil, fundada em 1590, cujas edificações passaram por transformações e adaptações ao longo dos séculos.
O membro do BID Roberto Monteverde esteve em Sergipe para participar de uma reunião. Chegou com antecedência e foi convidado por técnicos da Seinfra e pela superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em Sergipe, Eliane Fonseca, para visitar as cidades históricas de Laranjeiras e São Cristóvão. Caminhando pela Praça São Francisco, o argentino teve a oportunidade de conferir de perto a integração que o Monumenta tem com a comunidade. “Este lugar é fantástico”, exclamou o homem de negócios num típico dia de turista.
A moradora de São Cristóvão Elinar Fontes, 60, acredita nos benefícios que virão como conseqüência das restaurações dos monumentos do município. “Para a cidade é bom, porque gera emprego e o dinheiro ajuda a população”, disse a aposentada, que observa diariamente o progresso das obras. “O processo é lento, mas a reforma é necessária”, comentou dona Elinar. Ela espera o dia em que a Praça São Francisco será escolhida pela Unesco como um local que guarda parte da memória do homem. “Nós vamos ser Patrimônio da Humanidade”, afirmou a confiante dona de casa.
“Nesse momento, as obras têm um impacto na vida dos moradores, mas depois que tudo estiver pronto, a auto-estima deles vai lá para cima”, analisa Eliane Fonseca. Segundo a superintendente do Iphan em Sergipe, o Governo Federal, em parceria com o Governo do Estado, está investindo muitos recursos para que São Cristóvão seja reconhecida como Patrimônio da Humanidade. Ela cita, como exemplo, a iniciativa da atual administração estadual de atender o requisito imposto pela Unesco de que não tenha nada interferindo no bem tombado, como postes da iluminação pública.
Para isso, o Governo de Sergipe está aplicando recursos próprios no valor de R$ 682.923,86 numa obra de cabeamento subterrâneo. O objetivo é retirar o emaranhado de fios de alta tensão que atrapalham a vista da fachada dos monumentos da Praça São Francisco. Além disso, um projeto luminotécnico que vai valorizar a Praça e os prédios do entorno está aguardando licitação, prevista para acontecer até o final deste ano. “O projeto luminotécnico vai esperar a conclusão das obras das fachadas porque serão instalados equipamentos para valorizar justamente essa parte dos prédios”, explica José Carlos Sobral, coordenador da UEP do Monumenta São Cristóvão.
De acordo com o técnico da Seinfra, o Governo tem trabalhado para atender às demais exigências do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (Icomos), órgão técnico da Unesco que avalia as candidaturas previamente à votação. Por exemplo, o trecho da Rodovia João Bebe Água (SE-065) que vai da cabeceira da ponte do rio Poxim até a entrada do Conjunto Eduardo Gomes será totalmente recuperado, num investimento que chega a quase R$ 8 milhões. “O Governo está trabalhando em cima das metas de melhoria da conservação patrimonial e da infra-estrutura urbana para que, na próxima avaliação, a propositura da Praça São Francisco seja novamente avaliada”, disse José Carlos Sobral. A 33ª sessão do Comitê de Patrimônio Mundial da Unesco vai acontecer em 2009, na cidade espanhola de Sevilha.
Impactos no turismo
O investimento feito na preservação do patrimônio histórico fomenta o sentimento de valorização do sergipano pela sua própria terra, ao mesmo tempo em que oferece um atrativo a mais para os turistas que vêm para o estado. A restauração de monumentos e museus de São Cristóvão e a instalação de novos espaços de memória com recursos das administrações estadual e federal vão fortalecer o já significativo legado cultural da cidade. E oferta de cultura é um elemento imprescindível para o planejamento de ações que visam atrair turistas.
“É incontestável que qualquer investimento que se faça na melhoria do patrimônio de uma cidade melhora o atrativo”, diz o coordenador José Carlos Sobral. Para ele, quando o Museu Histórico de Sergipe for reaberto à visitação, e se juntar novamente ao conjunto arquitetônico de São Cristóvão, com suas igrejas seculares e manifestações folclóricas não menos tradicionais, o fluxo turístico vai aumentar no município.
A técnica da UEP do Monumenta Laranjeiras, Luciana Machado, afirma que as obras de recuperação dos monumentos estão mudando a dinâmica dos dois municípios sergipanos. “Já é possível observar o aumento da oferta de serviços em São Cristóvão e em Laranjeiras, a exemplo de pousadas, restaurantes e lanchonetes. Os turistas e os alunos da UFS estão demandando o surgimento de uma estrutura que atenda suas necessidades”, comentou.
A doceira Marieta Santos, 65, atentou para esse novo cenário e foi atrás do financiamento do Monumenta. Após apresentar uma série de documentos à Caixa Econômica Federal, ela conseguiu o recurso que precisava para reformar uma propriedade localizada próxima à Praça São Francisco. “Depois que o dinheiro chegou, fiz a casa toda. Eu e minha família vamos morar e trabalhar lá agora”, explica a especialista em queijadas. No caso de imóveis particulares, o programa Monumenta estabelece alguns requisitos para disponibilizar recursos. O Governo do Estado disponibiliza apoio técnico através das UEPs, mas não financia as obras.
Interiorização da universidade
As aulas dos cursos ofertados pela UFS em Laranjeiras estão acontecendo provisoriamente no Caic da cidade desde março de 2007. A sede definitiva do campus será no Quarteirão dos Trapiches, localizado em frente à outra edificação recuperada pelo Monumenta, o Casarão de Oitão, onde já funciona a biblioteca universitária. Cinco graduações são oferecidas no município: Museologia, Arqueologia, Arquitetura e Urbanismo, Teatro e Dança.
Segundo a historiadora e coordenadora do Núcleo de Museologia Verônica Nunes, os moradores de Laranjeiras já percebem que têm, dentro de sua cidade, um campus da Universidade Federal de Sergipe. “Num primeiro olhar, observamos apenas a recuperação de um monumento. Mas depois percebemos que aquele será um espaço para a prática do ensino, da pesquisa e da extensão, o tripé que fundamenta as atividades de uma universidade”, diz a professora.
A biblioteca que funciona no Casarão de Oitão, ou antigo Teatro Santo Antônio, desperta o interesse não apenas nos alunos universitários, como também nos laranjeirenses. “A biblioteca está servindo à própria comunidade, tanto aos estudantes do Ensino Fundamental e Médio, como também aos moradores, que vão até lá para pegar um livro ou ter acesso a pesquisas via internet”, aponta Verônica Nunes. “É a vida que retorna a esses lugares históricos”, completa.
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